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“Tony Manero” de Pablo Larrain

“Tony Manero” de Pablo Larrain

Foto: divulgação

Genial retrato da construção coletiva da monstruosidade

Filme

“Tony Manero” filme de Pablo Larrain

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

• Raul Peralta é um homem solitário, cercado de poucos amigos(?) e pouco disponível para exercitar laços afetivos, exceção feita ao personagem do famigerado filme “Embalos de Sábado à Noite” protagonizado por John Travolta. Este vai se mostrando como a única referência de Raul, alteridade virtual e idealizada, com a qual Raul vive uma relação de escravidão. Seu sonho? Dançar e ser como Tony Manero. Para isto não apenas busca copiar seu modo de dançar (nos mínimos detalhes!), mas repete mecanicamente algumas de suas falas, decoradas nas vezes em que vai assistir o filme. Raul/Tony quer participar de concursos de dança, onde exatamente se trata de imitar os famosos passos, claro, com a mesma roupa e até com o mesmo comportamento. Isso é tudo que Raul quer para sua vida. Mas não é tudo o que ele vai fazer no seu insosso cotidiano, que lhe desperta mais e mais ódio, repleto que está de figuras reais, que o confrontam com regras e demandas reais, ao mesmo tempo que servem de suporte para o duro exercício de sobreviver com a conquista do pão de cada dia.

O contexto político e social que alicerça essa história é o Chile de Pinochet, com as ruas desertas, policiais em constante vigilância, silêncio imposto à custa de mortes e do medo coletivo. Neste estado de coisas, o próprio cinema é veículo de propagandas que servem muito mais para esfumaçar a possibilidade de reflexão crítica, reduzindo-se a uma máquina de fabricar ilusões e capturar os indivíduos nos territórios bem conhecidos da sociedade espetacular (e especular). Assim, o entorno imediato de Raul, composto por pessoas igualmente esmagadas e que se devotam a seguir o rumo que lhes é proposto, habitando uma classe média empobrecida e vulgarizada em seus atos (inclusive no exercício da sexualidade), tem o poder de apenas reafirmar a impossibilidade de outros encontros e afetações. Até mesmo a (vã) tentativa do casal Goyo e Cony de exercer uma atividade de luta contra o regime termina por se mostrar infrutífera. Diante de tudo isso, Raul experimenta indiferença. É com indiferença que se relaciona com as pessoas. Todas as que encontra serão mero objeto para os parcos interesses que acalenta, e serão expostas à brutalização quando necessário.

Raul Peralta não é somente um indivíduo. Como o filme mostra de maneira simples e direta, é uma instituição, que dissemina valores, estabelece modos de pensar e conceber a vida, produz corpos e ideais a serem seguidos. Produz o individualismo extremo, no qual o outro só pode ser reconhecido como objeto o gozo próprio, ainda que este gozo esteja cada vez mais a serviço de uma mortífera repetição. Ao final, ficamos com a amarga sensação de que estamos cercados de indivíduos como Raul, ainda que em sua maioria menos violentos. Isso quando nós próprios não nos deixamos capturar no “estilo Raul de ser“.

O trabalho de Pablo Larrain tem uma estética muito interessante, produzida por uma soberba fotografia (Sergio Armstrong), que nos traduz o universo dos personagens com tons escuros e muitas vezes desfocados. Tudo é muito nebuloso, seja do ponto de vista da leitura que os personagens fazem de suas vidas e encontros, seja do ponto de vista da leitura que o espectador pode fazer disso, isso quando ele mesmo não é alçado a ocupar o ponto de vista dos próprios. Os enquadramentos e movimentos de câmera permitem e até instigam a isso. Além do mais, o modo de retratar a solidão e o desespero jamais verbalizado por Raul e pelos seus companheiros, aproxima a todos do drama desses indivíduos, boçalizados e inertes diante do destino. Direção que destaca uma atmosfera opressiva e árida, até mesmo (e principalmente) quando se trata de mostrar as luzes e o palco que servem de alimento para os Tony Maneros” da vez. O roteiro (com participação do protagonista Alfredo Castro, além de Pablo Larrain e Mateo Iribarren) também é ótimo, articulando com precisão as ações de Raul, em busca de uma impossível identificação com um mundo absolutamente distante de si, com diálogos duros, caracterizando a crueldade que atravessa os encontros que ocorrem. O elenco está todo muito coeso, com destaque para Alfredo Castro, vivendo um indívíduo que desafia as leituras psicopatológicas e nos põe diante de um horror que não cessa após o término da sessão.

“Tony Manero” fala mais diretamente do Chile ditatorial de 1978. Mas as questões que coloca estão na ordem do dia. Se já não estamos mais atropelados pelos regimes ditatoriais, estamos convivendo, em vários níveis, com os subprodutos de um tipo de sociedade que não precisa da ditadura para se manter e afirmar seus (perversos) valores. Valores que nos tratam como porcos, de acordo com o projeto de imbecilização cotidiana.

Vale a pena ver!

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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