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“TROPA DE ELITE” de José Padilha

TROPA DE ELITE

Foto: divulgação

Uma potente incitação ao debate sobre a violência urbana

Luiz Felipe Nogueira de Faria

Filme de José Padilha. No elenco: Wagner Moura e Caio Junqueira

• A polêmica que se faz em torno de “Tropa de Elite”, suscitando comentários que vão desde os elogios mais entusiasmados às críticas mais contundentes, mostra com clareza a que vem a proposta de José Padilha. Retomando a perspectiva do livro “Elite da Tropa” que gerou uma discussão sobre os caminhos e descaminhos da ação policial numa cidade que – fato por todos reconhecido – vive em guerra permanente, e na qual a segurança pública adquire as cores de uma tragédia anunciada, o filme se apresenta desde o início com a intenção de mostrar uma guerra da qual ninguém está isento em suas responsabilidades: bandidos e policiais, policiais e policiais, usuários de drogas e traficantes, intelectuais e leigos, autoridades e cidadãos comuns, etc. E é bem de responsabilidade que se trata quando nos percebemos chamados a tomar partido e exercitar o pensamento em meio ao emaranhado de situações (grotescas, humilhantes, aviltantes dos mínimos direitos que se diz caracterizarem a cidadania) que explodem na tela com a sutileza própria das ações dos esquadrões do Bope e do tráfico armado.

Os personagens que comparecem, desde os policiais corruptos e violentos até os “ingênuos” e bem intencionados trabalhadores de Ongs (passando pelos garotões universitários fascinados pelos encantos da drogadicção e do tráfico “de asfalto” ,como se diz), exercem seus “poderes” e influências de maneira despudorada, capturados pelos ardis das oposições simplistas e binárias. Todos vivem no limite da vida - reduzida ao terror das identidades congeladas e empobrecidas no seu poder de criação - e da morte - induzida pela trama que faz dos indivíduos meros objetos, com seus corpos expostos à brutalidade, banalizada pelas racionalizações que pretendem justificá-la como natural e necessária (a este respeito, as falas do capitão Nascimento são lapidares). Nesse universo, crispado por armas potentes e barulhentas, desenha-se uma espécie de genocídio, assustador porque afirmado em muitos momentos como inevitável e até desejável.

Não há dúvida de que se faz um cinema de qualidade. Direção segura, roteiro bem elaborado, interpretações excelentes (com destaque para Wagner Moura, que vive o [anti] herói Nascimento no limite do patético, sem descambar em nenhum momento para o estereotipado). As seqüências de invasão e tiroteios nas “comunidades” são de grande agilidade e os enquadramentos, produzidos nas várias cenas onde os policiais “aprendem” a se tornarem capazes de combate, precisos. O ritmo é frenético e o clima de guerra é sustentado mesmo nos momentos onde parece haver uma trégua (o nascimento do filho de Nascimento é um bom exemplo). Em meio a esse turbilhão somos tragados e colocados na “linha de tiro” – a bem da verdade muitos tiros, todos certeiros.

A rigor, nem todos os tiros são tão certeiros. Nas passagens em que estudantes universitários buscam pensar as correlações de força que comparecem e se fazem na “rede de poderes” que atravessa o tecido social, soa excessivamente ligeiro e superficial o tratamento dado às teses do filósofo e historiador Michel Foucault sobre a constituição dos mecanismos disciplinares que caracterizam o que este pensador denomina bio-poder. Mas isto talvez seja também mais uma das provocações que o filme traz. Ao final fica a impressão de que as teses comentadas na sala de aula (suscitando um curioso debate entre os alunos com um que também é policial) são uma referência para o próprio diretor, posto que são esses estudos (e nenhum outro) que aparecem para uma discussão teórica. Será?

Seja como for, “Tropa de Elite” carrega as tintas numa versão que é a do policial (a voz em off do capitão Nascimento não apenas narrando os fatos, mas sugerindo um sentido, um modo de interpretá-los). Contudo, o próprio dilaceramento do capitão, as contradições de sua trajetória, e last but not least a intenção proclamada desde o início de abandonar seu trabalho - reconhecendo o horror que há nele - mostram que há outras versões em pauta. O risco é nos deixarmos fascinar e capturar pela versão oficial, esquecendo que o objetivo fundamental do filme é debater, provocando e espicaçando as certezas e confortos.

Assistir “Tropa de Elite” é obrigatório. Para se divertir com o bom cinema e polemizar num tema que nos afeta cotidianamente.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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