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COLUNA DO LEITOR

Um olhar sobre o “amor platônico”,
que de Platão não tem mais nada!

Por João Pedro Roriz - 25 de agosto de 2011

Toda música, livro ou seriado de TV ficcional visa apresentar as mil facetas do comportamento humano. Mentes criminosas, atitudes corajosas diante das dificuldades, ações altruístas, obsessões, sentimentos bons e ruins e histórias sobre relacionamentos servem de matéria prima para os artistas e muitas vezes se transformam em arte – uma espécie de vitrine, de onde podemos vislumbrar os rumos da sociedade em que vivemos.

Muitos desses produtos culturais contextualizam a vida a dois, essa complexa relação íntima e amorosa que transforma seus protagonistas em indivíduos cegos ou incrivelmente vulneráveis. A pergunta “devo confessar que eu amo?” já foi feita pela maioria das pessoas e muitas ainda vagueiam pelas estradas obscuras da indecisão. Os escritores sabem disso… e o “amor platônico” costuma ditar a tônica de inúmeras obras literárias, como “Quadrilha”, um famoso poema de Carlos Drummond de Andrade:

“João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém (…)”.

Mas qual seria a verdadeira definição de “Amor Platônico”? Para responder a essa pergunta, é necessário recorrer ao conceito de “Amor” que o filósofo grego Platão (428?/348?), discípulo mais famoso de Sócrates, tornou célebre. Segundo o filósofo, “amor” é o sentimento puro baseado nas virtudes e não nas paixões – sendo estas repletas de imperfeições como interesses, falsidades, egoísmos, vaidades e superficialidades.

Platão, em sua visão vanguardista, também filosofou sobre a existência de dois mundos – o “ideal”, oriundo das ideias, perfeito e ilimitado e o real, oriundo das experiências, imperfeito e limitado. Muitos filósofos consideram o conceito original de “amor” descrito por Platão como um sentimento que não existe e que portanto vaga apenas no mundo das ideias e não no mundo real baseado em relações humanas primitivas e emocionais.

Com o passar do tempo, o termo “amor platônico” se popularizou e se deturpou. Vulgarmente, é chamado de “amor platônico” aquele amor que não se concretiza e que fica apenas no campo das idéias. Na visão popular, o “amor platônico” pode acontecer por conta da timidez, dificuldades ou baixa autoestima da pessoa que não revela os seus sentimentos e que, portanto, não concretiza a sua relação.

O psicanalista Heidi Tabacof acredita que essa visão deturpada de “amor platônico” revela imaturidade emocional, uma vez que limita-se à uma idealização do próximo. Esta idealização impossibilita a concretização de uma relação amorosa com uma pessoa real que possui dificuldades e limitações. Essa idealização tem origem psíquica no amor infantil pelos pais – personagens supervalorizados que, neste caso, servem de modelo para a escolha de parceiros sexuais.

O conceito de “amor platônico” perdeu o seu sentido original e hoje limita-se a uma máxima popular que adapta o termo de acordo com a compreensão coletiva sobre o significado da palavra “amor”, sentimento ainda tão complexo e incompreendido. Fica a expectativa de que o amor “virtuoso e livre das paixões” vislumbrado por Platão não seja algo inefável demais para homens e mulheres ainda tão materialistas e exigentes de recompensas por suas contribuições afetivas.

João Pedro Roriz é jornalista, escritor e ator. www.joaopedrororiz.com.br

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