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"Um homem sério" de Ethan e Joel Coen

"Um homem sério" de Ethan e Joel Coen

Foto: divulgação

Para mostrar que humor é coisa séria.

Comentário

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria. Em 07 de abril de 2010

" Um homem sério" de Ethan e Joel Coen

A trama que sustenta o mais novo trabalho dos mestres Ethan e Joel Coen tem o poder de provocar grandes e insistentes sustos. Ela refere diretamente a discussão sobre o sentido da vida, dos atos, das crenças, dos laços que fazemos e acalentamos, enfim, de tudo aquilo que nos organiza num dado tecido sócio-cultural e colabora na escritura de nossa história. Junto com isso, o problema da destinação, da maior ou menor responsabilidade que podemos assumir por aquilo que nos acontece, especialmente quando  uma parte do que nos acontece é herdado e escapa às escolhas mais imediatas. Para encerrar, a questão do merecimento, do que esperamos para nós mesmos, inclusive aquilo que faz emergir o problema da felicidade que, mal ou bem, insiste sem dar tréguas, lado a lado com um certo mal-estar. É pouco? O fato é que o que “dá pra rir dá pra chorar” e vice-versa, como já dizia um poeta, e a matéria brevemente relatada acima costuma render dramalhões e lágrimas sem fim, além de conclusões um tanto suspeitas, posto que maniqueístas, para dizer o mínimo.

Essa não tem sido a escolha ética e estética destes cineastas e aqui, mais uma vez, nos deparamos com uma pérola do humor negro que, mesmo ambientado num universo bem específico (a comunidade judaica, com seus valores, tradições e experiências singulares), e, como já foi dito, trabalhando/revendo questões de sua história pessoal, é capaz de oferecer um enriquecimento admirável às discussões que entrevemos sobre a vida e sua inevitável companheira, a morte. Sorte nossa que podemos fazer da nossa aflição cotidiana motivos para um gesto que desmonta a angústia paralizadora e produz boas gargalhadas. No que diz respeito a “Um homem sério” podemos atribuir essa sorte aos irmãos Coen, exímios observadores dos paradoxos e dos absurdos humanos. Tão observadores que conseguem destacar a sua face mais terrena e por isso risível. A tragicomédia humana fica até mais palatável, temperada que está em ervas inspiradas. Como?!

Primeiro, o absoluto compromisso com a precisão na caracterização dos tipos, mórbidos, grotescos, enlouquecidos, cínicos, numa palavra estranhos. Segundo, a maneira aguda de realizar os enquadramentos e planos, sempre destacando o non sense que atravessa as vidas, adicionando situações e diálogos geniais. Terceiro, a inteligência humorística capaz de afetar com elegância, sem abrir mão da crítica contundente à cultura e aos costumes. Quer mais? Bem, o respeito pelo sofrimento e pelas artimanhas de cada um em dele escapar, residindo aí uma das mais brilhantes marcas do humor produzido.

Com isso, é possível entender que as questões postas pelo professor Larry Gopnick (Michael Stuhlbarg) ao seu Deus (que é também o Deus herdado da tradição judaica, de seus pais) permaneçam sem resposta, especialmente quando se trata de encontrar sentido para os “disparates” que pouco a pouco vão transformando sua pacata vida num caos. O que teria ele feito para merecer tanto abandono? Ou, o que isto poderia significar de ensinamentos? Diante do silêncio de Deus e dos sábios que procura, restará tocar a vida, apegando-se aos laços possíveis e compartilhando com os mais próximos sua sina. O entorno familiar de Larry não é nem um pouco acolhedor, no trabalho, seu rigor acadêmico e honestidade são ameaçados a todo o momento. Mas, ainda assim, o professor segue aguardando uma resposta que possa apaziguar suas dores e perplexidades. Qual poderia ser?

Seja como for, o final do filme traz uma surpresa que obrigará o surgimento de outros problemas. Aí o riso será um pouco mais amargo, mas o que fazer? O filme não se propõe a trazer as respostas que Larry pede dos seus e principalmente dos rabinos. A gargalhada maior vem daí: em alguma medida, somos todos como ele, desamparados lutadores, sem sentidos prévios para atribuir à vida e sem garantias de conquista de felicidade pelos nossos atos, por mais que eles se ordenem pela mais absoluto respeito aos preceitos éticos mais nobres.

 “Um homem sério” é cinema de alta qualidade. Não deixe de ver.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato
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