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“Jards Macalé: Um morcego na porta principal”

Foto: divulgação

Incursão melodiosa nas cavernas do múltiplo

Comentário

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria. Em 22 de Março de 2010.

“Jards Macalé: Um morcego na porta principal” de Marco Abujamra e João Pimentel”.

A trajetória de Jards Macalé, artista que dialogou com várias correntes da MPB e soube se alimentar de outros campos de criação na cultura recebe neste documentário uma homenagem merecida. Principalmente por se tratar de um trabalho que na sua concepção respeita e admira o estilo pouco convencional e até disruptivo do músico, que em algum momento foi codificado como marginal. Será mesmo? Ou se trataria de uma tentativa do chamado estabilishment de capturar alguém que não se pôs a fazer demasiadas concessões aos esquemas tradicionalmente aceitos e naturalizados de sucesso? A questão, tratada com o devido cuidado, permanece em aberto e é algo que cada um pode levar para casa após o filme, confeccionado, diga-se, com um humor adequado ao morcego de que fala o título: inteligente e corrosivo com os valores mais conservadores.

Seja como for, a partir de depoimentos de artistas tão importantes como José Celso Martinez, Gilberto Gil, Nelson Mota, Nelson Pereira dos Santos, Maria Betânia, Jaguar, dentre outros, e entrevistas com o próprio Macalé, com sua capacidade de contar histórias deliciosas com a arte e a malícia que fazem a fama do bom e nobre malandro, temos um contato com ritmos e tempos que não acontecem sem algum esforço de construção (e desconstrução, claro). Além do mais, o exercício de Abujamra e Pimentel não cai na tentação da arrogância e ilusão da originalidade absoluta. Por isso é simples, sem rebuscamentos, preciso no andamento, seja no aspecto informativo, seja na produção de polêmicas e debates, destacando sempre a ousadia e (porque não?) a porra-louquice do “personagem”. Tudo isso com ótimas músicas.

Jards Macalé é um patrimônio da cultura brasileira, mas pelo seu próprio movimento prefere não tecer linhas próximas deste desenho. O que não o exime de responsabilizar-se pela sua produção, fato que é apresentado diretamente nas leituras que o artista faz de sua música, da relação com as gravadoras, dos encontros que realizou no cinema e também a partir do reconhecimento de sua competência, feita pelos seus pares.

Assim, o filme propõe que alcemos vôos com este irreverente autor. No limite a questão de saber o preço que se pode pagar para sermos autores de nós mesmos. Exercer o cuidado de si e viver a vida criativamente não permite estratégias de conforto e garantia. O belo do caminho de Macalé é ele ter sido ao mesmo tempo apropriação e abandono de si. Com o riso que não esconde a dor, mas com ela tece um conluio em defesa da vida.

Bonito. Vá, antes que saia de cartaz.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato
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