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“Um segredo em família” de Claude Miller

“Um segredo em família” de Claude Miller

Foto: divulgação

A verdade histórica entre o silêncio e a fantasia

Comentário do filme

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

“Um segredo em família” de Claude Miller

“Um secret” (título original) baseado no romance do psicanalista Philippe Grimbert, traz interrogações interessantes sobre o modo pelo qual os indivíduos constroem e sedimentam as histórias de suas vidas, incluído aí a vida e história de seus antepassados. Nessa linha de pensamento as questões que acossam cada um, e que insistem pedindo atenção, dizem respeito não apenas a uma tentativa de dar sentido à própria origem, de quem nascemos e como e porque fomos feitos, mas principalmente aos efeitos devastadores dos silêncios, que produzem dentre outras coisas a impossibilidade de compartilhar com algum outro um sofrimento ou ato (supostamente) vergonhoso e, efeito ainda mais grave, a impossibilidade de viver o necessário luto das perdas e mortes, o que permitiria resgatar a céu aberto as memórias dos fatos e acontecimentos que marcam a história, individual e social.

Quando consideramos que um dos efeitos pretendidos pela “solução final” nazista foi o extermínio dos judeus (inclusive da memória do,próprio extermínio, como alguns acontecimentos recentes mostram), algo muito mais brutal do que uma repressão, percebemos que o problema abordado pelo filme é de grande densidade. Para tornar as coisas ainda mais complexas o relato que urde a trama toma como protagonista uma criança (François Grimbert) que toma para si a impossível tarefa de dar sentido e lugar ao que na tradição de seus próximos (adultos) não pode habitar a vida senão como ardência sem nome, chaga que não cicatriza, melancolia que se respira cotidianamente.

Filme difícil demais? Especializado para psicanalistas e estudiosos de temas afins? Nem tanto. O trabalho de Claude Miller é de grande sensibilidade estética na condução dos pontos fundamentais, construídos desde a lógica da criança, passando longe do suspense vulgar. Aos poucos o entrelaçamento entre a construção infantil (prenhe de sabedorias captadas nos detalhes que vão muito além das palavras) e a história “real” vai se fazendo.

Costura delicada que não destitui as impressões de François de sua força, mesmo quando já adulto pode falar o que antes era silenciado. O recurso da voz em off, sem ser excessivo, produz um tempo afetuoso e um laço profundo entre o espectador e o protagonista. Além disso, há uma providencial economia de explicações psicológicas sobre as motivações dos atos que compõem a história que tragicamente constituiu François, sem ser dele diretamente. Um irmão morto e jamais enterrado, só pode comparecer em suas fantasias infantis, e estas buscavam dar alguma “compreensão” ao olhar melancólico e frustrado do pai diante de sua fraqueza e pouca disponibilidade para a ginástica. Assim, vão aparecendo figuras da pré-história do menino, e, ao mesmo tempo, grandes humilhações e vergonhas, ligadas à perseguição nazista, ao modo de lidar com a própria identidade naqueles tempos e à sexualidade, esta um espinho cravado com violência em todos que acompanharam a trajetória do patriarca Máxime Grimberg, sua mulher Hannah e depois Tânia, mãe de François. O desfecho da “trama” retoma e repete as proposições que afirmam a importância de manter viva a memória do holocausto e do que isto significou e ainda significa para todos os humanos (não apenas os judeus). Mas entre esse final e os vários momentos de busca e descobertas há muitas trilhas abertas e sugeridas. Todas elas são compostas em cenas muito bem articuladas, com enquadramentos e movimentos de câmera que destacam exatamente os conflitos, contradições, paradoxos, violências, silêncios, arrebatamentos, erotismos, enfim, humanidades cuja única fronteira é esse espaço entre o sonho e o fato real, onde se faz a verdade, que sempre escapa aqui para se refazer acolá, porque está na possibilidade da linguagem e também aquém dela.

O roteiro (do próprio Miller) respeita as questões – que recebem uma leitura psicanalítica, mas que são de vida e da vida do autor do livro – que os personagens trazem com suas dores sem abrir mão da simplicidade narrativa, deixando claro os pontos de virada e permitindo um entendimento que não se reduz aos fatos mais óbvios da história. A direção é sensível ao clima fantasmagórico, mas evita os exageros, deixando François falar e concluir sua história e a de seus pais. O elenco está afinadíssimo. Cécile de France (a exuberante Tânia, involuntariamente estopim de uma tragédia que marcou a todos), Patrick Bruel (Maxime, o sofrido e fracassado patriarca que nega a identidade judaica até no nome), Ludvine Sagnier (a doce e melancólica Hannah, que se joga ao sacrifício por um impulso para além de qualquer compreensão) e Mathieu Amalric (o angustiado e solitário adulto François, terapeuta de autistas, orfão de um irmão que nunca conheceu) fazem interpretações excepcionais. Julie Depardieu (como Louise, figura que acompanha as tragédias e se põe fiel à memória dos que foram duplamente silenciados) faz um trabalho muito delicado e bonito. Os outros atores do elenco também estão ótimos, sem esquecer das crianças.

Para falar desse belo filme será ainda necessário destacar a composição de Zbiniew Preisner, pontuando com brilho os afetos que explodem nas cenas, e o trabalho de direção de arte de Stéphanie Arnaud e Thierry Poulet. “Un Secret” já foi muito bem falado e indicado e tem recebido muitos

espectadores. Não perca a chance de ver no cinema.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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