Comentários de filmes

FILME

“UMA GAROTA DIVIDIDA EM DOIS” de Claude Chabrol

UMA GAROTA DIVIDIDA EM DOIS de Claude Chabrol

Foto: divulgação

Sensual maneira de falar dos desafios das paixões.

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

UMA GAROTA DIVIDIDA EM DOIS”

• O mais recente trabalho (ao menos para nosso conhecimento) de Claude Chabrol traz à baila velhos temas: a relação de fascínio e erotismo entre uma ninfeta e um homem muito mais velho, o desconcerto provocado pelas paixões e ardores da sexualidade (especialmente se vivida fora de certos padrões instituídos), o conflito entre a ousadia na criação de valores e a hipocrisia dos moralismos sociais, o crime e as perversões que acompanham as formas jurídicas autorizadas a “decifrá-lo”, os diferentes modos de construir relações em família e seus destinos, dentre outros. Mas a maneira de tratá-los, se não é original, possui a sagacidade de evitar um olhar normalizador, além de destacar os laços entre a literatura e o erotismo. Tudo isso numa trama que prende a atenção até por dispensar grandes erudições.

Mas há outros encantos. Fiel aos contornos principais da(s) histórias que vão se encontrando, numa espécie de turbilhão de afetações conjuntivas e disjuntivas, o filme traz uma atmosfera de forte sensualidade, captada não apenas a partir da protagonista Gabrielle (a tal garota dividida), mas também nos olhares, respirações, gestos da fala. Corporeidades em chamas, todas elas comparecem, cada uma a seu modo, para criar cenários sempre inesperados, ao menos no que tange aos destinos da trama.

Gabrielle – jovem e linda apresentadora de um jornal de TV –, Charles Saint-Denis – escritor talentoso e reconhecido pela sua obra e pelos seus dotes de conquistador e “hedonista” – e Paul Gaudens – jovem milionário que nutre um ódio neurótico por Saint-Denis – formam, por vias pouco convencionais, um triângulo amoroso no qual é Paul que sai ferido pelo lugar subalterno que ocupa no coração de Gabrielle. Entre eles circularão sofrimentos, rivalidades, paixões desmedidas até um desfecho que traz para Gabrielle dores insuspeitadas e exigências as quais permitirão para ela outros teares, a par da experiência da (inevitável) divisão que a acompanha.

Em muitos momentos a discussão parece privilegiar a paixão entre Gabrielle e Saint-Denis, mas mesmo aí é possível perceber a mão perspicaz de Chabrol conduzindo o debate sobre os múltiplos (e muito humanos!) motivos do amor, os estranhamentos e ódios que são peculiares a estas situações, as “loucuras” do sexo e o fascínio que exercem, bem como o efeito perverso das leituras que se fazem na exterioridade dessas relações e que, então, só podem desqualificá-las, quer em nome de velha e famigerada moral da família burguesa, quer em nome das modernidades que aprisionam pela imposição de liberdades e não mais pelos seus impedimentos.

Assim as questões vão emergindo nos pedaços de fala de cada personagem, com cada um assumindo, sem dizer, suas opções de vida diante desses desafios. Desde a mulher de Saint-Denis até a mãe de Gabrielle (muito a propósito uma livreira) todos assumem suas posições, mais ou menos convictos e sempre conflitantes. Pior para Gabrielle que se deixa capturar entre as delícias e descobertas proporcionadas por Saint-Denis e a futilidade enfurecida de Paul, que vai se tornando uma caricatura de moralismo e brutalidade, até mesmo para lidar com as conseqüências interessantes e importantes do saber sexual de sua amada.

Seja como for o desfecho deste denso filme possui um admirável otimismo, as últimas cenas brincando com a dor e suas conseqüências, com o mérito de tratar a vida sem ressentimentos. “La fille coupeé em deux” (no original) mostra subjetividades se fazendo a partir de lugares diferentes, com diferentes interesses que se constroem nos encontros, sem que estes tenham a pretensão de funcionar com lições de ética. A lição está no gesto de desprendimento que permite a construção de uma convivência sócio-cultural que não extermina as diferenças e conflitos.

O elenco está afinado. Ludivine Sagnier (estonteante linda) é muito expressiva e compõe bem a passagem de ninfeta ousada para mulher amadurecida, Benoit Magimel (Paul Gaudens) alcança um ótimo ritmo entremeando paixão infantil e rivalidade perversa sem descambar para o óbvio. Também François Berléand (Saint-Denis) está preciso, ao caracterizar um tipo de bem com a vida, irônico com as hipocrisias da sociedade que critica em seus livros e em paz com suas opções, apesar de afetadíssimo com Gabrielle. O roteiro de Cecile Maistre e do próprio Chabrol é bem construído, com diálogos rápidos e bem humorados, sem deixar perceber o desenlace da trama. Fotografia e direção estão bem afinadas, de acordo com o clima passional que domina todo o tempo.

Este bom filme está em cartaz há 2 semanas. Corra para não perder.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

Poste um comentário