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“Valsa com Bashir” de Ari Folman

“Valsa com Bashir” de Ari Folman

Foto: divulgação

Viagem em busca dos abismos da memória

Filme

Valsa com Bashir Filme de Ari Folman

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

• As primeiras e últimas cenas de “Valsa com Bashir” contém em si mesmas toda a tessitura da trama, sustentadas numa reflexão que problematiza os efeitos das experiências traumáticas da guerra para os que sobrevivem aparentemente sem sequelas e perdas mais dolorosas. Nas duas sequências vemos o esboço da questão e a sua resposta, ainda que a última não tenha exatamente o poder de aliviar as enormes inquietações que cada vez mais atravessam aqueles que as procuram. É o caso dos participantes do massacre perpetrado pelo exército israelense a mulheres, crianças e velhos na guerra do Líbano, em 1982. Perseguido por um pesadelo que evoca uma passagem por uma aldeia libanesa um homem encontra um velho companheiro (Ari Folman) para falar desse episódio e desperta no amigo o desejo de reviver o que a memória parecia não mais permitir. Também ele tem sonhos e memórias fragmentadas, sem sentido, desses tempos. A partir daí seu esforço será o de saber sobre o que dizem, na sua insistência e intensidade, essas imagens, para realizar um cuidado de si, materializado na construção (até o momento impossível) de uma lembrança/vivência para sua participação no massacre, e, por aí, um outro sentido para sua própria história.

O filme traz de maneira permanente uma atmosfera ao mesmo tempo onírica e sombria, presentificando nos traços de memória/sonho a que se permitem os vários personagens contatados, o indizível e insuportável sentido das experiências de guerra, que só aos poucos vão se reconstituindo. Interessante é a estratégia de identificar o espectador com os personagens em busca do afeto perdido, situando ambos na relativa ignorância dos acontecimentos que farão importância. Uma outra artimanha do roteiro e da direção está no modo com os personagens discutem e falam de sua relação com as (ausências de) lembranças: fica clara a opção de Ari Folman em mostrar a impossibilidade de escapar impunemente das conseqüências dos atos assumidos numa guerra, quer eles sejam significados (mais ou menos) conscientemente ou não.

Além do mais, a discussão sobre a memória e seu apagamento implica uma outra ainda mais densa: a que refere o compromisso com a escrita e o arquivo, na medida em que ambos dependem para poderem existir de ações que se diferenciam do mero jogo burocrático e superficial dos registros factuais. A partir de certo momento já não se trata mais, para cada um dos envolvidos na guerra em geral e no massacre em particular, de acessar a memória dos fatos, mas sim, algo mais complexo e doloroso, encontrar a si mesmos nestes fatos, reconstituindo um impossível sentido prévio, ele mesmo só indicado nos horrores noturnos e nos pesados silêncios da fala. Ari Folman não faz concessões a si e aos companheiros, nem tanto para expiar culpas, mas para enfrentar com dignidade o desafio de viver (talvez pela primeira vez) a dor de uma experiência que traz diretamente a dor e o desespero de outros. Este encontro é inevitável. Reconstruir a história a partir dele também.

Assim, com diálogos sinceros e passagens muito bem concatenadas (palmas para a montagem a cargo de Feller Nili), esta ótima animação prende a atenção e força ao pensamento. Bons motivos para que seja indicado, com louvores.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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