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COMENTÁRIOS SOBRE FILMES

“VICKY CRISTINA BARCELONA” de Woody Allen

Penélope Cruz, Javier Bardem e Scarlett Johansson

Foto: divulgação

Soberba versão sobre as inquietações da paixão e do amor

Filme

“VICKY CRISTINA BARCELONA”
filme de Woody Allen

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

O novo filme de woody Allen não traz a rigor nada de muito novo por relação a outros que o cineasta realizou. Seria possível dizer até que ele repete velhas questões e proposições a respeito dos desafios que se impõem quando se trata de conjugar, na vida ordinária e cotidiana, as escolhas que resultam de um certo modo de existir com o imprevisível dos impulsos e chamamentos menos afeitos ao controle intelectual. Desse ponto de vista, seria simples e fácil desdenhar das provocações contidas nas tramas que se desenrolam (sim, no plural, porque não é apenas uma trama que compõe “Barcelona”) com um argumento que só faria reconhecer a mesmidade, e, assim, atestar o enfadonho, relegando o filme a um plano inferior. Contudo, é possível fazer uma outra leitura: nela ganha destaque a discussão sobre o valor político e ético da insistência em afirmar a tragicidade do humano - mesmo e sobretudo quando ela alcança uma dimensão cômica – especialmente nos tempos atuais, onde essa dimensão vem sendo progressivamente apagada em prol das normas, normalizações e da tão propalada segurança e garantia dos investimentos, inclusive afetivos e sexuais. Por aí podemos alcançar outros patamares, menos obedientes e cômodos, é certo, mas muito mais enriquecedores, para o pensamento e para a vida.

Insistência em falar, através do cinema, do inescapável do erotismo e da morte, da proximidade com a loucura, do encontro necessário entre a experiência artística e o abismo da existência, do vazio inexorável que nos habita e nos impulsiona. Fora de moda? Talvez, mas o velho mestre não parece demandar elogios apoiados no modelo tecnopop. Ao contrário, pretende se deleitar em (re) contar “antigas” histórias, retomando (e até citando por vezes) maneiras já consagradas no cinema clássico (como a voz em off), sempre com um toque de fino humor, também este um tanto desaparecido da cena cotidiana. E tudo isso sem hermetismos, o que demonstra generosidade na medida em que permite que possamos compartilhar com ele esses prazeres e inquietações.

A idéia que move todo o filme é mostrada de maneira direta e simples e equivale a uma aposta: o que pode valer a pena nos encontros que realizamos na vida é a possibilidade de que eles nos transformem, nos potencializem para além das certezas que possuímos, e sejam capazes de afetar nossa carne, lá onde ela clama pelos prazeres e onde se depara igualmente com a dor. O sexo/erotismo comparece aí como algo fundamental, mas não o sexo vazio e controlado, ao dispor das performances do espetáculo. Ele obriga ao remanejamento das crenças, inquieta pela sua transgressão permanente, dilacera por não funcionar de acordo com a conservação de padrões e moralidades. No limite, ele convoca a uma discussão da relação com o outro, no reconhecimento de seus mistérios e impossibilidades. Do encontro com o outro saímos sempre alterados, ainda que permaneçam as questões e dúvidas que elegemos como realmente importantes.

Vicky, sua amiga Cristina, Juan Antonio e Maria Helena (para ficar nos quatro personagens principais) se fazem tão mais humanos quanto mais se embrenham pelo caos que experimentam, convocados, cada um a seu modo, pela cruel curiosidade de conhecer seus próprios limites. São hilariantes seus recuos, tropeços, contradições, paradoxos e enganos. São excitantes seus apaixonamentos e disponibilidades para a vida, assim como compreensíveis seus sofrimentos. A atmosfera caliente é bem caracterizada não apenas em um dos principais motes da história (as férias de Vicky e Cristina), mas também nas músicas, nas cores, nas tomadas de cena que captam sutilmente os gestos faciais em mutação de cada personagem, suas falas não coerentes, a beleza dos arrebatamentos. Exemplos de um roteiro e um jeito de dirigir que se querem próximos e respeitosos com o destino de cada personagem, sem fazer concessões à exigência do final bem resolvido e aliviado das dores.

Javier Bardem (Juan Antonio), Penélope Cruz (Maria helena), Rebecca Hall (Vicky) e Scarlett Johansson (Cristina) conduzem muito bem seus personagens, encontrando o tom exato para suas trajetórias, todas elas muito pulsantes e algo atormentadas (especialmente a Maria Helena de Penélope). O time de apoio tem Patrícia Clarkson com atuação delicada.

O que mais dizer? Está claro que este comentador é um woodialiano convicto! Pode não ser o seu caso. Mas vá conferir. Ou, se preferir, indique aos inimigos. Quem sabe eles sejam adeptos desse encontro com o “estrangeiro íntimo” que o velho Woody estima...

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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Site Oficial: www.vickycristina-movie.com

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